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Opinião
Sábado - 20 de Novembro de 2021 às 08:34
Por: Marcio Camilo

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Falei na tribuna livre da Câmara de Cuiabá nesta quinta-feira (18.11.2021), no contexto da Semana da Consciência Negra. Falei, a partir das minhas vivências, sobre como o racismo afeta as pessoas pretas.


E ao olhar pra displicência de muitos vereadores quanto ao tema (a vereadora Michelly Alencar, por exemplo, saiu do plenário enquanto eu falava, pra vocês terem uma ideia do interesse...) a discussão precisava avançar mais e mais, com mais pessoas sendo tocadas a respeito do racismo estrutural, que permeia o tempo todo as nossas relações.

Será que se fosse um homem branco, de terno e gravata, falando sobre o racismo, a vereadora teria a mesma postura que teve comigo? Num sei. Fica a dúvida. Talvez eu esteja vendo racismo em tudo. Talvez... Fica a dúvida também...

Mas o problema, e esse foi um dos pontos da minha fala, é que de fato o racismo está praticamente em todo lugar, porque a nossa sociedade brasileira, depois da chegada dos portugueses, foi forjada nesse sentido.

No meu relato aos vereadores disse que quando passei a entender essa estrutura, passei a ver as sutilezas do racismo nas relações do cotidiano. E aí, a partir do momento que você passa a ter esse olhar mais crítico, fica difícil de ‘desver’. Já não fica tão sutil assim.

Se eu fosse branco, vereadora teria a mesma postura que teve comigo?


Comentei com os vereadores (e uma vereadora, a Edna Sampaio. Era pra ter duas, né!?) que passei a circular nos espaços de poder e de prestígio e a reparar quem estava ocupando o quê. Reparei que no shopping o manobrista do estacionamento era preto, a faxineira era preta, os seguranças, majoritariamente, eram pretos e pardos, e o gerente? Ah o gerente... Adivinhem a cor dele...

Aí fui dar uma pesquisada pra ver quantos desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso eram pretos e adivinhem quantos, dos 29, que são pretos: nenhum! Tem até desembargador japonês (com todo respeito aos japoneses), mas é que pensando na base da sociedade mato-grossense, que é constituída em 60% de pretos e pardos, não ter uma pessoa preta num cargo de importância como esse, é muito pra cabeça, tem alguma coisa errada aí, não tem?

Eu acho que tem e tudo isso passa pela questão do racismo estrutural, da gente compreender seus meandros e combatê-lo para uma sociedade mais justa, mais igual, mais humana (não sei se mais humana, porque a humanidade comete cada atrocidade que eu vou te falar... Uma delas inclusive é a própria escravidão)


Mas enfim, espero que a minha fala tenha ajudado um pouco os vereadores e as vereadoras (a Edna já está ligada, falta a Michely…) na percepção desse racismo, que não é patológico, não é pontual, mas é estrutural. Teve displicência sim, mas alguns parlamentares se ligaram também. Deu pra perceber seus olhares atentos.


Ah, e antes que me critiquem, não é que pessoas pretas não possam ocupar cargos de porteiro, de faxineiro, de manobrista... Não é isso. Pelo amor de Deus e de Xangô também. São postos muito dignos, que estão na base, e fazem essa sociedade funcionar.

O que destaco é que o povo preto também precisa ocupar, proporcionalmente, já que somos a maioria populacional, cargos de liderança nessas instituições mais estratégicas, justamente para combater essa estrutura racializada, como deve ser combatida. Então são mais pretos e pretas promotores, juízes, desembargadores, delegados, governadores e governadoras, presidentes e presidentas e por aí vai. Só o preto sabe a dor e a alegria de ser preto.

E outra coisas importante de se ressaltar: sinto muito em dizer a você, cara pessoa que lê este artigo, mas todos nós, infelizmente, somos racistas em potencial, porque essa praga está naturalizada em nossas relações, infelizmente, infelizmente mesmo.

É chato falar isso, mas é necessário pra gente encarar esse problema de frente e resolvermos a situação, todos e todas, de maneira unificada, de maneira antirracista. Que os brancos cada vez mais cheguem pra essa luta.

Ah, e só finalizando mesmo, essa semana em Cuiabá esteve e está repleta de atividades para refletirmos a Consciência Negra. Elas estão ocorrendo pelo centro de Cuiabá, especialmente na Praça Alencastro, e são tocadas pelo Movimento Negro e o mandato coletivo da vereadora Edna Sampaio.

Procurem a programação e participem. As atividades, por sinal, se estendem até o final deste mês de novembro, do nosso senhor Zumbi dos Palmares.


São nesses pequenos atos (de participar, de ver, de prestigiar) que a gente começa a ser antirracista.

Marcio Camilo é jornalista e músico.



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