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Opinião
Segunda - 14 de Fevereiro de 2022 às 06:11
Por: Pedro Felix

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As trilhas de nossa caminhada pela vida, deixam marcas no tempo que se transformam em resíduos memoriais, no contexto de um espaço socialmente construído.

Estes resíduos memoriais exercem no ser humano a capacidade de orientá-lo, cristalizando valores e significados, criados com ajuda de referências simbólicas exteriores, e nos contextualiza geosocialmente no grupo.

Ao sairmos de casa, não importa aonde vamos, mas ao passar por lugares, nosso cérebro vai reconhecendo a toponímia, cantos construídos na cidade que entrelaçam trajetos e faz pipocar nosso senso de orientação com ajuda dos cinco sentidos.

Viver em Cuiabá com seus quase 303 anos e, identificar pontos de relevância histórica ou mesmo, folclórica (no âmbito das lendas e dos causos) espalhados pela cidade, nos ajuda a resignificar/memorificar o meio urbano.

Na linha da gnose aqui estabelecida, uma análise residual da cidade, chama atenção. A relação que temos com o micro espaço da região do Porto e do rio adjacente.

Realizando um corte geográfico para identificarmos vários cantos significativos do Porto antigo, podemos identificar o mais importante como o Rio Cuiabá, pois foi nele que se teve o primeiro contato oficial entre nativos e paulistas de 1719 a 1722.

Muitos cantos não fazem parte da história oficial da cidade, mas nem por isso são esquecidos. Ao contrário, são elevados ao memorial cuiabano da oralidade sendo repassado de geração a geração e são com o tempo, reapresentadas as novas gerações, que a contam a sua maneira.

Mas do que estamos falando concretamente? Entre outros, do micro monumento social chamado de “Pedra 21” situado às margens do Rio Cuiabá, adjacente a primeira ponte conhecida por Ponte Júlio Muller, que liga Cuiabá a Várzea Grande.

Localizada a poucos metros de distância da ponte velha, ou Júlio Muller, foi um local/“point” excelente para banho. Cercado pelo saranzal (mata ciliar protetora das margens) sendo um pequeno corredor de pedras que nascendo na margem esquerda do rio, se alonga até um local propício para pular de ponta cabeça, ou no linguajar local “pular de pôita”.

Quem morou nos bairros do Porto e Terceiro Velho sabe do que estamos falando. O local é privilegiado pela famosa pedra. Era comum tomar o banho vespertino e ao pular no final dela em cima de um redemoinho de águas tornava o episódio uma verdadeira aventura.

No final da pedra existe uma “loca” (buraco) embaixo que cria movimentos circulares na água.

E o nome de pedra 21 surgiu como? Vinte e um por quê? Quem contou isso pela primeira vez deve ter presenciado, ou ouviu falar e caiu no gosto popular.

Por estarmos no terreno do imaginário, temos hoje diferentes versões para o fato. O que há de comum é que 21 soldados supostamente morreram, isto é fato. O que muda é a forma como isto aconteceu.

O Fato da morte dos soldados não especifica se são os do 16º Batalhão de Caçadores ( Hoje 44º batalhão de caçadores, localizado no Bairro Duque de Caxias) que foram tomar banho em cima da pedra, ao cair na água, um após o outro, todos sumiram. Ou do quartel da 15 de novembro (1º Batalhão de Polícia da Capital), bem próximo ao Rio Cuiabá.

O que ou quem matou efetivamente os militares?

Outros personagens se sobressaem do episódio. A “loca” (buraco fluvial) embaixo da pedra não seria uma das moradas de um peixe grande, como o Jaú, ou do lendário minhocão?

Mudanças temporais trouxeram outras versões, como a contada no livro Cuiabá, da Tchapa e da Cruz, de autoria de José Augusto Tenuta.

Tenuta introduz na tragédia, o naufrágio de um navio embarcado com militares e que ao bater na famosa pedra, matou 21 deles.

Além do “causo” dos 21 militares mortos, a Pedra 21 em si revela um espaço de abastecimento de água, alimentação, lavanderia a céu aberto, lazer e serviços constantes aos Bairros do Porto e Terceiro Antigo.

Ela continua lá, no mesmo lugar, inerte resistindo e insistindo em nossa memória, de um espaço/tempo que parou de existir, no momento da enchente de 1974 que inundou o bairro Terceiro Antigo e reformulou ao orla do Porto.

O Poeta e antigo morador do bairro do Porto Ivens Scaff assim a descreve:

Pedra 21

Nadando entre lavadeiras e canoeiros

Canoeiros pescadores e canoeiros apanhadores de areia

Os meninos do século XX eram totalmente felizes

O nome Pedra 21 era um mistério

Que remetia ao século XIX

Os meninos do século XXI

Não sabem onde fica a Pedra 21

Talvez ela tenha sido retirada do mundo por magia

Baixa magia

Baixa magia chamada progresso

O advogado Fábio Capilé resenha outra atividade muito comum que era praticada na Pedra 21, a lavagem de roupa. De um jeito bem peculiar e com linguajar cuiabano, ele resgata o movimento das lavadeiras e seus filhos em volta das Pedras.

Ele expõe com riqueza de detalhes a chegada das mulheres, com suas rodilhas de pano na cabeça, equilibrando a bacia ou lata de 20 litros.[i]

(...)

“Entre a cabeça e a lata havia um pano enrolado feito ninho de passarinho ou turbante, para proteção do "cocoruto". Eram as "lavadeiras do rio", em mais um dia de trabalho. Havia as que "lavavam pra casa" e as que "lavavam pra fora", e por isso, algumas ficavam o dia inteiro na beira do rio até "desencardir" a última peça de roupa.”

O detalhe do texto, chega a ser cinematográfico e com seu cuiabanês típico, dá para imaginar a cena cotidiana de um tempo de outrora

(...)

Respirava fundo, "agatchava de cócoras" ao lado de uma poça d´água (desenhada pela natureza nas pedras) puxava a saía até a altura do joelho, e aí passava a pegar peça por peça.

Era um ritual: "Futchicando" ou "cantarolando" pegava a roupa, enxaguava, esticava na pedra, passava sabão de barra, pegava na mão, esfregava uma mão com a outra, enxaguava, torcia, socava a roupa na pedra por algumas vezes até "desencardir", enxaguava novamente a peça, torcia para tirar o excesso de água e dependurava, ao final, no "sarã" pra "secá", sob o sol e o vento generosos.

Era um tempo onde mães cuidavam diretamente de seus filhos e para onde iam os levavam. Braços fortes, corpo esguio e um olho na roupa e outra nos filhos que traziam e se divertiam na Pedra 21.

(...)

“Enquanto isso, as crianças brincavam de pular das pedras na água. Outros levavam a varinha de "pescá" de taquara. Enquanto a mãe trabalhava, o filho pegava uns lambaris para fazer fritada no almoço.

Era uma fisgada atrás da outra. Enquanto agachada, o suor escorria, e como obra de engenharia, era canalizado pelas marcas de expressão deixadas sem trégua ou piedade ao longo do tempo no rosto.”

As minucias do texto de Capilé demonstra sua vivência e infância e ao falar das lavadeiras da Pedra 21 reforça uma mistura de saudosismo e esperança em um futuro melhor.

A Pedra resiste e hoje o lugar tem um protetor, que “in lócus” montou sua habitação num terreiro bem cuidado e limpo, onde uma placa “fala” de uma Associação de proteção da Pedra 21.

Tente chegar lá e por instantes sentir o lugar, e suas diferentes inserções sociais do bairro do Porto. E sinta-se cuiabano ao lado do rio que lhe deu o nome.

Obs; Agradecimento a Professora Rosimar Rondon da SME/Cbá pelo auxilio na construção do texto.

Pedro C N Felix é professor de História.



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