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Opinião
Sexta - 07 de Janeiro de 2022 às 06:28
Por: Maria Augusta Ribeiro

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Os analfabetos hoje não são mais as pessoas que não sabiam ler ou escrever do passado. Uma nova classe de gente sem os conceitos básicos para navegar pela internet engrossa o debate de quem são os analfabetos digitais.

Segundo a Agencia Brasil eles representam mais de 40 milhões de brasileiros que nunca tiveram acesso a internet. É aí que a conversa vai de tom de dificuldade a um obstáculo sem precedentes.

Um relatório chamado “Inclusive Internet Index”, que avalia qual ponto a internet contribui positivamente para melhorar fatores socioeconômicos, coloca o Brasil em 37 lugar num ranking de 100 países avaliados.

E se pensarmos que as empresas responsáveis pela infraestrutura para a chegada da internet para esses brasileiros não o é responsável por ensinar como utilizar, a chamada transformação digital fica precária na base.

A deficiência começa ao formar pessoas, e a conta não fecha. Se o formato convencional do ensino brasileiro já é falho, imagine o que acontece quando despencamos uma legião de pessoas mal instruídas para a vida digital com a possibilidade de fazer o que quiser.

Metaverso nem passa perto. Vamos ter é abusos e crimes virtuais acontecendo em escala exponencial, e o que deveria incluir, será motivo de exclusão.

A cena vai ser bizarra: pessoas se abarrotando para ter acesso a uma tomada para carregar seu smartphone, e pedófilos, fake News e nudes inundando feed de redes sociais, sem chance das pessoas distinguirem o que bom ou ruim para eles.

Na prática teremos mais gente com o dispositivo na mão, mas que não saberá ao certo para que serve.

Sabemos que hoje não criamos nossos filhos para o mundo em que fomos criados. Mas pense em alguém que, como você, se esforça para dar uma boa educação, aquela de valores familiares; mesmo que seja um analfabeto, se vê em meio a uma realidade que não compreende e que não consegue inserir seu filho nesse universo, para progredir.

Será mais gente fora da escola, do mercado de trabalho e das relações familiares. Serão mais criminosos, valores distorcidos e uma população cada vez mais numerosa sem instrução do universo digital para o físico.

Sim, porque a ideia de se colocar mais gente com critérios deficientes ou valores inexistentes em ambiente digital, vai ser absorvido pela vida real. E o impacto disso vai ser desastroso.

Sou responsável por assustar as pessoas quando, baseado em estudos, observo os dados de cenário caótico que podemos ter nos próximos anos com a falta de zelo pelo operacional da cena digital.

E não temos certeza de nada, mas podemos ter atitudes hoje que contribuam para a transformação digital que tanto desejamos. Educação não é vacina, mas é o melhor que podemos fazer para não criar uma onda de analfabetismo digital.

Nunca é cedo para ensinar e tampouco tarde para aprender. O que não podemos é ficar de braços cruzados, culpando as políticas públicas por atitudes que poderiam ser tomadas por nós, afinal de contas, quem gera empatia, ensina e aprende.

Temos que repensar sistemas educacionais melhores, reconsiderar jornada de trabalho mais atrativos, e estimular o aprendizado para a vida.

A reflexão aqui é de estimular todos a pensar como vamos barrar os avanços do analfabetismo digital e evitar que esses 40 milhões brasileiros sem acesso à tecnologia consigam buscar oportunidades de transformar suas vidas, inseridos no virtual de forma clara.

Como cidadã comum, penso que é hora de sermos protagonistas nessa brincadeira e ir a campo. Podemos apadrinhar crianças e jovens que geram essa educação ou fazer nós mesmo.

Conhece alguém que não tem e-mail? Que não sabe o que é wi-fi? Explique, debata, invista financeiramente a educação dessa criança, jovem ou adulto. Somente incentivando a empatia, criatividade e coragem, teremos um ambiente digital como desejamos no real.

Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia.



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