Repórter News - reporternews.com.br
Opinião
Segunda - 13 de Abril de 2026 às 00:02
Por: Renato de Paiva Pereira

    Imprimir


Os políticos estão alvoroçados. Já começou a temporada de xingamentos que vai estender-se até outubro. Talvez seja a única época em que eles falam a verdade. Não sobre si mesmos, claro, mas sobre os concorrentes.

No meio político há mais pessoas mal-intencionadas, ou, percentualmente, se iguala ao número geral da sociedade?

Também são abundantes os discursos dos que estão deixando os cargos atuais para disputar outras vagas. E eles são enfadonhos, repetitivos e cheios de clichês. Todos relatam a sensação de dever cumprido. Externam uma profunda gratidão ao povo, à família, a Deus.

Falam sobre os desafios, sobre os momentos de angústia, sobre a carga de trabalho. Invariavelmente exaltam as próprias virtudes, entre elas a humildade e a honestidade. No fim, todos tiveram um mandato exitoso: se são parlamentares, deixaram tais e tais contribuições. Se executivos, entregam as Prefeituras, Estados

ou União muito melhores do que os encontraram.


Garantem que nenhuma vaidade os move e que não têm qualquer apego ao poder. E que saem com a cabeça erguida. São tão recorrentes os discursos que, com poucas modificações, o texto lido por um prefeito do interior do Piauí serve para um governador de Santa Catarina. Até mais: o discurso feito por um governador do Amazonas em 1960 é quase igual ao de um prefeito do Rio de Janeiro em 2026, trocando-se somente algumas poucas

palavras que saíram de moda por outras mais atuais.

Temos que suportar isto, porque a política é necessária e não podemos botar no mesmo balaio todos os que militam nela. Mas, ficam algumas indagações: o meio político seria mais viciado que o privado? Os indivíduos são corrompidos pela política ou entram nela porque são corruptos? No meio político há mais pessoas mal-intencionadas, ou, percentualmente, se iguala ao número geral da sociedade? Pessoas comuns não estariam igualmente sujeitas aos desvios de conduta que o meio propicia? Não seria a impunidade o maior estímulo à corrupção?

A percepção de que os políticos são mais desonestos pode ser parcialmente verdadeira, mas também influenciada pela visibilidade de seus atos, pelas oportunidades inerentes ao meio e pela cultura da impunidade.

Enfim, o vício (vileza) e a virtude (honra) não estariam democraticamente distribuídas entre os políticos e a sociedade em geral?

Faço a seguir uma recriação irônica do Soneto 138 de Shakespeare, baseado na tradução de Ivo Barroso.

Quando diz ser probo e dedicado,

No candidato, creio — e sei que mente;

Passo assim por velho inocente,

Tolo, ingênuo e ultrapassado.

Calejado de ver o vício disfarçado,

Finjo crer porque é conveniente.

Mas, de novo, porque é recorrente,

Serei com certeza engabelado.

E, ainda assim, contrariado, noto

Sem outra opção, dar-lhe-ei meu voto.

Renato de Paiva Pereira é escritor e empresário.



Comentários

Deixe seu Comentário

URL Fonte: https://reporternews.com.br/artigo/7539/visualizar/