Da Pedra ao Ofício: A Maçonaria Operativa Expressão é usada para se referir ao universo do trabalho da pedra
Uma catedral medieval em construção mobilizava homens durante anos, às vezes décadas. Pedras eram cortadas, ajustadas e assentadas; arcos, paredes e torres avançavam lentamente. Por trás dessas obras havia trabalhadores com diferentes níveis de experiência, especialização e responsabilidade, inseridos nas formas de organização próprias do mundo dos ofícios.
A expressão “Maçonaria Operativa” é usada aqui para se referir ao universo dos construtores ligados ao trabalho da pedra. Entre esses trabalhadores, as guildas constituíam uma das formas de organização do próprio ofício, assim como ocorria em outras atividades. A documentação registra também fraternidades e outras associações, relacionadas à convivência, às práticas religiosas e ao auxílio entre seus integrantes. Essas formas de organização assumiam características próprias conforme o lugar e o período.
Em Londres, um registro de 1376 mostra que os termos masons e Freemasons já eram utilizados no universo do ofício da pedra. O significado dessa distinção, porém, não é inteiramente claro. Ao longo do tempo, estudiosos relacionaram a palavra freemason ao tipo de pedra trabalhada ou à condição de liberdade do pedreiro para exercer o ofício. A documentação conhecida não permite afirmar com segurança qual dessas explicações corresponde ao uso do termo naquele momento.
Outros registros mostram com mais clareza as diferenças existentes entre os próprios trabalhadores da pedra. Entre os séculos XII e XV, os registros mencionam hewers, responsáveis pelo desbaste da pedra; layers, pelo assentamento; wallers, pelos muros; marblers, pelo trabalho em mármore; e image-makers, ligados à escultura e à ornamentação. Habilidades, responsabilidades e remuneração variavam conforme a atividade exercida.
O trabalho também não prendia necessariamente o pedreiro a um único lugar. Catedrais, castelos e mosteiros eram construídos ao longo de muitos anos e demandavam trabalhadores em diferentes etapas, permitindo que esses profissionais se deslocassem de uma obra para outra e levassem consigo a experiência adquirida em outros canteiros.
A lodge fazia parte desse cotidiano. Nos documentos medievais, a palavra está ligada ao canteiro de obras e designa uma construção ou espaço utilizado pelos pedreiros durante os trabalhos. Em Caernarfon, em 1321, há referência à lodge dos pedreiros; no ano anterior, outra é mencionada durante as obras da Capela de Santo Estêvão, em Westminster. Em York, em 1399, uma relação registra objetos guardados na loge. Mais tarde, um contrato para a construção da Coventry Cross determinava que fosse providenciada uma “house or lodge” para os pedreiros durante a execução da obra. São referências bastante concretas, que permitem compreender a lodge a partir do canteiro sem lhe atribuir funções que esses documentos não demonstram.
Alguns registros permitem inclusive acompanhar trabalhadores individualmente. William Hyndely aparece em 1472 como supervisor (warden) da lodge dos pedreiros. Dois anos depois, já como mestre pedreiro, trabalhava com dois aprendizes e três trabalhadores; cinco anos mais tarde, com onze pedreiros e dois aprendizes. Em 1610, outro registro distingue o Freemason, capaz de desenhar o projeto, executar o trabalho e dirigir outros profissionais, do rough mason, cuja atividade e remuneração eram diferentes.
Medição, cálculo, desenho e geometria faziam parte dos conhecimentos necessários em determinadas atividades da construção. Alguns profissionais participavam tanto da concepção quanto da execução das obras, e muito desse conhecimento era adquirido no próprio exercício do trabalho, na convivência entre aprendizes e homens mais experientes. Era uma forma de aprendizagem encontrada também em outros ofícios artesanais.
Desse mundo chegaram até nós não apenas contratos e registros de obras. Os manuscritos medievais conhecidos como Regius e Cooke mostram outra dimensão do ofício: a maneira como sua história e algumas de suas regras eram apresentadas. Eles trazem uma história lendária do ofício e ordenações relacionadas aos pedreiros, com referências a assembleias, remuneração, relações entre companheiros, auxílio no trabalho e regras de conduta. As narrativas sobre as origens do ofício não constituem, por si mesmas, uma descrição histórica dessas origens, mas esses manuscritos oferecem um registro importante de normas e concepções associadas ao ofício naquele período.
A documentação disponível tampouco aponta para uma grande corporação de pedreiros submetida a uma única autoridade em toda a Inglaterra. Guildas, fraternidades e outras associações aparecem em contextos locais e podiam combinar interesses profissionais, práticas religiosas e formas de auxílio.
Cícero Ramos é engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

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